Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Visita Guiada

Vou começar este post com uma frase característica (porque típica é a patanisca de bacalhau) da minha terra: não há vergonha. A começar por mim que no post anterior escrevi chovoso em vez de chuvoso!! (obrigada pipas!! =p)

 

Infelizmente, pouco mais tenho feito do que passear-me pela casa, ver tv q.b., computador q.b., muito telemóvel, ler e pouco mais. O que faz com que sobre muito tempo para repousar e dormir. Mas no fundo é por isso que o sr. Dr. me mandou ficar em casa. Desta forma… tenho desenvolvido maus hábitos de aluna de liceu a meio de Agosto: deitar tarde e tarde erguer. A partir da meia-noite vejo a sonytv porque gosto de ver os Friends e o que vem depois, mas lá para a 01h30 já estou à seca. Esta noite em vez de fazer um zapping completo em vez do tradicional. É então que esbarro na 2 e na “Visita Guiada”.

 

Passo a explicar… “Visita Guiada” e o nome de uma cena que um tipo chamado Pedro Hespanha fez; e, achou que era uma obra prima bestial!! (agora até parecia a Beatriz Alcobia a falar…, com todo o respeito!!)

 

Isto já foi há uns tempos. Mas durante muitos meses andámos nervosas por causa do assunto e não se falava muito disso. Agora que já passaram largos meses e que já ganhei um pouquinho de nada de mais de estaleca, acho que já me posso manifestar humildemente sobre o assunto.

 

Antes de vermos o filme, no nosso mundo de guias, esperámos muito ansiosas e contentes pela coisa. Alguém tinha feito um documentário sobre nós. O Snatti informou toda agente. A palavra passou. Cada uma fez a publicidade à sua maneira. Eu pessoalmente postei aqui e enviei um e-mail aos meus mais que tudo. Com esta tenra idade, não me cabem numa mão as vezes que já me arrependi profundamente de ter feito uma coisa e, esta é uma delas!

 

Muitos foram ao S. Jorge ver a peça, porque estava no rol do Indie. Sei de várias fontes directas que não foi bonito; o documentário para começar e o circo que se formou na plateia para terminar.

 

Eu pessoalmente vi em casa. Não chorei… mas estive perto de partir a televisão. Acho que nunca tive tanta vergonha na vida. E não fui a única.

Dois dias depois fiz um barco. A colega com quem trabalhei a par, aparentemente tinha telefonado a meio mundo a publicitar o documentário. Telefone esse que, jurou ela a sete pés, não lhe tocou nas 24 horas seguintes ao filme ter passado na 2. Tinha vergonha de atender o telefone, dizia ela, era mau demais.

 

Basicamente este tipo fez um documentário sobre história de Portugal contada pelos Guias-Intérpretes portugueses.

 

Comecemos por dizer que se 98% da população portuguesa não conseguia perceber a nossa profissão, agora 101% nem sequer nos respeita para querer perceber.

 

 

Mas antes gostava de dizer que ao contrário do que toda agente pensa, não levamos uma vida nada fácil. Logo logo para começar é muito difícil explicar as pessoas o que fazemos. Porque maior parte dos portugueses nunca viajou em circuito ou viajou sequer.

Em segundo lugar 100% desses portugueses não sabem o que quer dizer trabalhador independente, quanto mais “freelancer”. Os poucos que percebem, pensam que eu não sou suficientemente boa para que uma agência me contrate a tempo inteiro. (Sim… também já me perguntaram isso). Gostava de saber se os actores de televisão também têm esta dificuldade e estas dúvidas existenciais. Ou se a palavra “novela” os ajuda bastante perante o público mais ignorante. Não estou a ofender ninguém!! Actores deste país, por favor digam-me de vossa justiça se isto também vos acontece. Se calhar até podemos juntar-nos, fazer um clube, beber vodka como se não houvesse amanhã e rir disto tudo.

AH e em terceiro lugar, é necessário uma grande calma, valeriana ou diazepam (seja qual for a vossa religião…) para aturar certas coisas. Eu pessoalmente tive que me sentar e contar até dez quando, numa manhã de quinta-feira de Janeiro, a minha ex-sogra me telefona a pedir um favor e me diz com a maior lata deste mundo e do outro: “Sim, tens disponibilidade, porque agora estás desempregada…”. Calei-me, saberá Deus porquê (se calhar porque já me fartei de explicar a minha vida a pessoas que pura e simplesmente não atingem). Mas tudo o que me apeteceu foi mostrar-lhe o meu rendimento anual e a minha agenda e; perguntar-lhe quem afinal é que tem a vida bestialmente mais interessante?

 

Mas dizia eu que isto não é fácil… Para juntar dificuldade à coisa, imaginem-se a fazer o vosso trabalho diário com 35 pessoas a assistir, criticar e avaliar. Apetitoso não?...

 

Obviamente que a minha curta e humilde experiência neste mundo não me permite alargar muito. Mas há uma coisa que eu costumo sempre dizer que por vezes ajuda a acalmar os ânimos cerebrais; aqui não há um meio-termo. Nesta profissão existem coisas maravilhosas e coisas terríveis. E não há o emprego perfeito e ser Guia-Intérprete em Portugal está longe de o ser! Aqui temos as mesmas dificuldades, desafios, discussões, dores de cabeça, desilusões, etc, etc, etc, que toda agente. Pura e simplesmente em vez de ter todas essas tretas fechada num escritório tenho-as em Roma, na recepção de um hotel, numa auto-estrada a caminho de Fátima ou num restaurante com vista para o mar no Guincho.

Mas foi exactamente por isso que eu desisti da Faculdade de Direito e fui para o Estoril. São escolhas de vida. Não há mistério nem segredo. Get it?

 

Se toda agente era capaz de o fazer? Não. E continuo a dizer o que digo desde o meu segundo ano de universidade. Pago uma finalíssima a quem me quiser contradizer… venham eles, estamos cá para isso!

 

Mas voltando ao tipo e à cena que ele fez… Não se percebe muito bem o que é que ele quer com aquela cena. É um documentário que supostamente retrata o nosso Portugal pela voz que um Guia-Intérprete.

 

Resumindo, aparentemente o senhor andou em viagem com alguns colegas e decidiu documentar o facto. Só que vá lá saber Deus porquê apenas editou as piores cenas e colocou essa treta a passar na televisão nacional. Resumindo, ridicularizou a nossa profissão como nenhuma sogra antes se tinha atrevido a fazer…!

 

Para juntar pimenta à coisa, soube depois que entram na cena pessoas aparentemente a trabalhar ilegalmente. Acredito perfeitamente e não me surpreende nada, basta aparecer perto do Padrão numa tarde de Setembro e ver como elas chovem vindas de Espanha. O que me choca é, que se isso realmente é verdade, que o senhor não se tenha dado ao trabalho de saber as leis base que regulam a profissão de que… guess what… está a fazer um documentário!!

Por outro lado, a mistura de alhos com bugalhos é no mínimo agressiva.

 

Vamos pôr as coisas na mesa bem espalhadas para que toda agente perceba.

 

Imaginem-se no vosso local de trabalho. Sejam professores, médicos, serralheiros ou cineastas! E agora imaginem uma câmara a filmar o vosso dia de trabalho integralmente. Tudo, todas as vossas glórias, os momentos vulgares e todos os podres. Agora imaginem alguém a editar essas imagens e a fazer um documentário só com os podres. O ridículo da vossa profissão. Pormenores que inseridos num dia completo de trabalho são mínimos. Mas obviamente que ao fazer uma hora de filme só com esses mínimos dá um resultado bastante pesado! E puff fez-se luz.

Foi basicamente isto que aconteceu… percebem agora?...

 

Eu não estou a dizer que somos perfeitos. Estamos longe de ser perfeitos, como qualquer ser humano à face da terra. Erramos, vencemos, improvisamos, adaptamos, contextualizamos, suavizamos, intensificamos, glorificamos, etc etc etc, como qualquer outra pessoa. Mas não somos só e pura e simplesmente aquilo. Pelo menos eu posso dizer que não sou e tenho muito orgulho nisso. Só isso.

 

Enfim, vou dormir. São 03h27, estou cansada e já não me apetece ligar a net… Amanhã ponho isto no blog porque estou a escrever no Word. Aqui na terra do Sado tenho net ao minuto (genial ideia da empresa de telecomunicações que não vou publicitar porque não me pagam para isso) e se tivesse a escrever isto directamente já tinha gasto uma pipa de massa lol.

 

Ah e para os críticos do costume. Que depois me vêm apontar o dedo e dizer “não te podes queixar só por fazeres parte de uma minoria!”. Não me estou a queixar. Até a secretária da esquina tinha o direito de se manifestar assim se se sentisse ofendida. Que é o que me sinto. Para isso é que existem os blogues, a liberdade de expressão e os tipos do Sapo.

 

Boa noite******************

 

Beijo

 

Joane

 

P.S. Todo o respeito pelas secretárias desse Portugal. Afinal de contas foi isso que pôs aqui a baby no mundo e a educou e sustentou até há relativamente pouco tempo. 

publicado por Joana Ramalhinho às 14:45
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5 comentários:
De Joana Oliveira a 30 de Dezembro de 2009 às 22:43
Olá.. O meu nome é Joana, tenho 18 dias e gostava de lhe pedir algumas informações. Este ano ingressei na Faculdade de Direito da UL mas já tratei de me vir embora porque percebi que aquilo não era para mim. No meio das minhas pequisas de outras licenciaturas deparei-me com a de Informação Turística da ESHTE, e, por portas e travessas, vim parar ao seu blog. Parece-me que o curso tem uma componente de História (disciplina que sempre me interessou muito) mas gostaria de saber mais coisas sobre o curso, as «vantagens» e as «desvantagens», as facilidades e as dificuldades, as cadeiras, qual é o mercado de trabalho para um Guia Intérprete, etc. Peço-lhe estas informações porque acho que é sempre muito útil ter a perspectiva de quem já terminou o curso e está no mercado de trabalho.
Desculpe o incómodo e agradeço-lhe a atenção
De Joana Ramalhinho a 2 de Janeiro de 2010 às 19:55
Olá Joana =)

Pff contacta-me através do joanar@net.sapo.pt, para falarmos melhor.

Obrigada
De beatriz j a a 4 de Janeiro de 2010 às 11:14
A TV está cheia de ignorantes e programas a condizer. Longe vai o tempo em que havia um mínimo de rigor no que se fazia para apresentar em público. É preciso coragem para se lançar numa profissão onde tudo depende de si, da sua capacidade de ir à luta em cada trabalho, que é buscado porque as coisas não vêm ter consigo do céu. Se mais gente assim empreendedora e com coragem houvesse neste país não estávamos neste situação.
beijinho

gosto da imagem de fundo do blog
De Joana Ramalhinho a 8 de Janeiro de 2010 às 15:18
Obrigada =)

A Beatriz inspira-me sempre!

Tenho saudades, a próxima semana vai ser ocupada e vou passá-la praticamente toda em Lx, mas para a outra bebemos um café? Quero ver o André também.

Beijinhos!!!
De Joana Ramalhinho a 8 de Janeiro de 2010 às 15:20
P.s. A foto é de um painel de azulejos no parque Guell em Barcelona, Gaudí. Aiiii que saudade... ainda esta noite sonhei com Barcelona... para variar... Você ainda tem que me explicar isto. Porque é que sonho tanto com Barcelona.

Beijo

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